10) A ação e a televisão
Resumo sobre o livro: Ação – Nada acontece até que algo se mova.
Inspirado em uma parte do livro em que o autor fala sobre a TV. Escrito por mim.
A ação produtora e consumidora. E a televisão
Como eu já disse em uma outra ocasião: “Os seres humanos, buscam o prazer e evitam a dor”. Normalmente, o ser humano busca a felicidade tentando garantir o prazer de seu futuro através da criação de produtos ou prestação de serviços. Esse produto ou serviço, ele pode trocar por dinheiro, e então trocá-lo por outras coisas que o faça feliz ou lhe dê prazer. Mais importante, isso permite que a pessoa acumule o dinheiro como uma forma de “prevenção às coisas inoportunas” e “garantia de prazer futuro”, cuja tentação faz com que praticamente todas as pessoas hajam dessa forma.
Visto de outra forma, estamos normalmente envolvidos em dois ciclos de ação: Em um momento, nossa ação cria coisas, o que eu chamo de “ofício”, e em um outro momento nossa ação consome coisas, o que eu chamo de “consumo”.
Embora o prazer não esteja inerente em nenhum desses tipos de ações, é mais comum que a felicidade esteja no consumo: ir ao parque de diversões, ir a um bom restaurante com sua esposa, trocar seu carro por um outro melhor, etc.
Nada impede, no entanto, que o prazer esteja também no ofício. É isso que se falam das pessoas que amam seus trabalhos: elas têm prazer em produzir algo e resolver os problemas das pessoas. No entanto, a maior parte das pessoas não encontra no ofício tamanho prazer quanto em outras ações consumidoras, e portanto seguem um ciclo de dor e prazer, exercendo seus ofícios durante a semana, para fazer seus consumos aos fins de semana.
Isso, no entanto, cria um dilema: O que acontecerá em uma eventualidade em que não puder exercer meu ofício? E a resposta para isso é comum para esse dilema é: Você produz o máximo que puder, consome o mínimo que puder, e se afligido por uma eventualidade, você estará resguardado pelo bônus do consumo que não exerceu no passado, guardado na forma de dinheiro.
No entanto, isso gera uma outra pergunta: “Eu também preciso me divertir, e meu ofício não me diverte como um consumo! Como posso consumir, sem com isso gastar meu dinheiro?” E é aí que vem a resposta: A televisão.
A televisão é indiscutivelmente um dos meios de entretenimento mais difundidos no dia de hoje. E melhor: é gratuito. Pelo menos de preço em dinheiro. E tudo que retorna algum tipo de valor e possuí um preço não cobrado em dinheiro atraí as pessoas.
Outra característica marcante da TV, além do fato de que ela não exige um custo em dinheiro, é a sua disponibilidade. Na maior parte dos lares, quando as pessoas retornam de seus ofícios, lá permanece ela, ligada. Seja na sala, no quarto, às vezes até na cozinha, lá está ela. O único esforço pelo qual você tem que passar para começar a desfrutá-la e sentar-se no sofá ou deitar-se na cama, o que se torna um prazer depois de um dia de trabalho.
“Mas então, temos algo para consumir. Que é gratuito. Que está sempre disponível. E ainda podemos usufruir disso em deitados em nossos sofás e camas! Que mal há nisso?”.
Para começar, o mal desse consumo gratuito acaba por praticamente sempre vencer a de algum trabalho. Os ofícios normalmente remetem à dor, ao trabalho árduo, enquanto consumo remete ao prazer. E o homem busca o prazer e evita a dor.
E daí surgem inúmeros problemas. As crianças não querem desligar a TV para fazer a lição de casa, as pessoas não conseguem desligar a TV à fim de ir dormir, e acabam por acordar atrasadas para os compromissos, normalmente de ofício, do dia seguinte, etc. Muitas vezes as pessoas vão para casa com a intenção de fazer algo, só para chegar em casa com a TV ligada e renegar a tarefa para o dia seguinte. É tão grande a tentação por aquela dose de prazer gratuito que se torna um esforço tremendo de auto-disciplina largá-lo para fazer qualquer tarefa, por menor que seja.
Mas isso tem um preço. Nossa vida é repleta de ofícios facultativos. Essas são aquelas coisas que não precisam ser feitas, embora fosse muito melhor se elas fossem feitas. Isso acontece principalmente nos afazeres de casa: consertar aquela lâmpada, lavar a louça. Também acontece nos estudos: aprender aquela tecnologia nova, aprender inglês. Também pode acontecer em outras áreas, como no cuidado com a nossa saúde, como a diferença entre fazer aquela saladinha trabalhosa ou uma porção de nuggets. Mas se existe uma tentação tão grande sempre à espreita, é muito provável que a pessoa acabe fazendo apenas aquelas tarefas obrigatórias, renegando assim as facultativas.
Pior e ainda mais perigosa, a idéia de um contentamento que já existe à um preço que se pode pagar criar na pessoa a falta de ambição. Muitas das tarefas facultativas têm como objetivo fazer como que a pessoa melhore seu nível de vida, obtenha qualificação para um outro emprego, etc. O contentamento com o entretenimento da TV faz, inconscientemente, com que a pessoa se acomode com seu estado atual. “Já tenho a diversão que preciso com o dinheiro que tenho. Para que mais? Comprar uma TV maior?”. Pode parecer exagerado, mas muitas pessoas, embora se digam não satisfeitas com sua situação atual, em vez de utilizar o tempo que dispõe para melhorar a vida, o usam consumindo a TV.
E isso não é só. Imagine agora, por um instante, se tivéssemos aparelhos de TV disponíveis à vontade para as pessoas em seus escritórios. Imagine por um instante que nessas TVs fossem apresentados programas favoritos das pessoas, como “Lost”. Muitos viciados em “Lost” sabem que seria impossível trabalhas sabendo que se passa, ao seu lado, o novo episódio da 3ª temporada de “Lost” que ela ainda não viu.
Mas a TV é, ainda, subjugada pelos críticos. Tão excelente que, uma vez exposto à ele, fica difícil que outras coisas consigam tomar tanta atenção das pessoas quanto aquela programação. Como todas as coisas boas, a programação de TV vicia.
E o vício pode levar a ainda outros problemas. Outros tipos de entretenimento passam a ser renegados em prol daquele, minando a diversificação e fortalecendo ainda mais o vício. Fazer aquelas tarefas facultativas já é um fato desprezado em si. Agora, o esforço está em fazer as tarefas obrigatórias! Acabamos por minar diversos aspectos de nossa vida pela devoção ao programa de televisão, seja ele “Lost” ou o novo “BBB”.
O problema se agrava com a idéia de urgência, que é comum na TV. A urgência consiste no fato de exigir sua atenção naquele determinado momento, já que a programação é a mesma para todos e a TV não pode ficar à sua espera. “Se você não largar seja lá o que você estiver fazendo agora, e vier nesse exato momento, sabe-se lá quando você poderá assistir ao meu programa novamente!”, conclama a TV. E a pessoa, muitas vezes viciada, responde à esse chamado, moldando sua agenda aquela imposta pela programação. E portanto, todos os outros compromissos da pessoa, sofrem. Pela interferência da TV.
Como amenizar esse problema? E não defendo a mesma posição dos críticos, que dizem que as pessoas devem abolir o uso da TV. No fundo, como eu disse, o conteúdo da TV pode ser excelente, é inclusive um dos meios de expressão da 7ª arte: o cinema. E seria ingenuidade, além de errado, pedir à alguém que se mantivesse ausente disso.
Em vez disso, a solução é combater a TV em suas 3 frentes: disponibilidade, urgência, e preço.
Como eu disse, o problema da disponibilidade é que a TV está o tempo inteiro na sala, no quarto, na cozinha, e quase sempre já está ligada. Quando não, a primeira coisa que fazemos é liga-la, já que o controle remoto está sempre no braço do sofá e nosso ato de pega-lo se torna quase instintivo. Para diminuir a disponibilidade da TV, o melhor é manter o controle remoto dela sobre a própria TV, ou em algum outro lugar, como dentro de uma gaveta. Além disso, ela deve ser retirada dos ambientes de jantar e dos quartos, mantida apenas na sala de estar.
“O quê!! Tirar a TV do quarto!! Blasfêmia!”. Na verdade, existe uma condição para deixar a TV no quarto, se você quiser, mas primeiro vamos esclarecer o segundo meio de combate, o da urgência.
A urgência é aquela que faz você abandonar tudo o que você está fazendo para assitir aquele seu programa favorito, porque ele começa às 20:30h. E para resolver isso, você vai desembolsar, e comprar um gravador de DVD.
“Simples assim?”. Simples assim. Nunca mais você vai ter que deixar suas obrigações para dar atenção à um programa por conta da urgência. Além disso, seu uso da TV passará a ser muito mais moderado, e você verá que nunca mais se pegará assistindo à um seriado, depois do outro, depois do outro.
Por fim, o problema do preço. Você vai favorecer o consumo de material pago. Isso mesmo. Normalmente, o material pago, além de ter mais qualidade que o material gratuito, está livre de propaganda. E a propaganda te rouba um bem ainda mais valioso que o dinheiro: o tempo. Use esse tempo extra para estudar aquela tecnologia nova que estão aprendendo no trabalho ou para fazer um curso de inglês e depois pedir uma promoção.
E aqui está a condição para manter a TV no quarto: Só se a TV for sem antena, e não sintonizar nenhum dos canais da TV aberta ou à cabo. Assim, você poderá assistir à um filme quando conveniente, mas apenas quando você fizer conscientemente a escolha de faze-lo, e não mais de forma inconsciente sintonizando em qualquer programa.
Através desses simples passos, a TV começará a fazer um papel coadjuvante no seu entretenimento. E mais curioso, você verá que o tempo que você passa com a TV é, no final, mais proveitoso do que aquele que você passava antes assistindo todos aqueles programas com os quais você nem se importava tanto.
E, mais importante, terá tempo e disposição para agir de acordo com aquilo que você realmente procura.
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