A música no mundo pós-pirataria

Eu estava querendo mudar um pouco o rumo do blog, e parar de comentar um pouco sobre pirataria…
Como eu já disse, praticamente tudo o que precisa ser dito sobre o assunto já foi dito, e todas as informações já estão à tona. O que muda a opinião de uma pessoa ou de outra sobre o assunto já não parece ser mais a desinformação, mas o caráter subjetivo de como interpretar essas informações.
Isso é engraçado. Em livros de investimentos, psicologia, auto-desenvolvimento que li, os autores defendem que as pessoas buscam evidências para dar suporte aquilo que acreditam, e ignoram as evidências que dão suporte aquilo que às contradizem.
Ou seja: Em vez de a pessoa buscar a verdade, a pessoa tem a tendência de buscar estar certa.
Não que isso só aconteça com os outros. Isso deve acontecer comigo também. E com você.
Enfim, eu entrei no Terra hoje pela manhã para ler as notícias do Campeonato Espanhol e encontrei, na home do Terra, a chamada “Veja como fica a música na pós-pirataria”. Pensei: “vamos ver mais esse ponto de vista”. Me deparei com o post “A música no mundo pós-pirataria” do blog “Movidos pela paixão“.
Normalmente, independentemente dos termos utilizados pelo autor sobre pirataria, ele pode ser categorizado como “pró-pirataria” ou “anti-pirataria”. Esse é do tipo pró.
O autor começa com o argumento: ..essa parece ser uma batalha perdida. Não por acaso, já se começa a usar um termo que deve dar o tom da discussão: “readequação”. OK, faz sentido. Isso tem muito à ver com a idéia de que “É impossível combater a pirataria com DRM” e que é necessário buscar outras formas de monetizar o trabalho dos artistas.
Mas depois ele muda o tom da conversa: “(o artista) ao invés de bilhões de dólares, terá de se contentar em ganhar milhões” e “o faturamento com Ivete Sangallo cairia de R$ 100 milhões para 10 milhões... o que não é pouco.”
Esse é um dos argumentos muito utilizados no discurso pró-pirataria, que eu chamo de discurso Robin Hood: “Eles já ganham dinheiro suficiente”.
O que muita gente não percebe é que abstraindo esse pensamento para termos genérico, a apologia feita é: “Uma vez que a vítima seja rica o suficiente, não há problema em cometer um crime”.
Fica muito mais feio quando dito dessa forma, não?
Por fim, o autor diz: “um admirável mundo novo, mais democrático … sem que os ouvintes tenham de se manter reféns dos programadores de rádio ou pagar por discos e possam ouvir a música que quiser”.
Aqui parece que o autor esquece que a música é um produto, fruto do trabalho de um ou mais músicos e diversos outros envolvidos. Não há nada de democrático em “ouvir a música que quiser”, sem pagar à quem de direito. Isso seria tão democrático quando poder entrar na casa de alguém e pegar o que quiser da casa dele e assumir como seu.
Parece que ainda estamos muito longe de entender o conceito de “propriedade intelectual” como “propriedade”. E isso fica ainda mais evidente quando lemos os comentários do post, em que basicamente todas as pessoas partem para o discurso “pró-pirataria”, embora ninguém saiba responder aos questionamentos dos músicos nos comentários, a maior parte dos quais, supreendentemente, não está ganhando 10 milhões de reais com os reféns da indústria fonográfica.
Por fim, a maior parte das pessoas sugerem que não há problemas em ouvir a música gratuitamente, que os músicos continuariam a ganhar dinheiro com os shows. No entanto, teoricamente, se eu posso baixar a música de alguém e ouvi-la gratuitamente, isso não significaria que não há problema em entrar de graça no show (pular o muro, furar a catraca, etc) e assistir ao show gratuitamente? Não seriam os dois casos idênticos?
Por fim, eu deixo o comentário, que também não foi respondido, do músico Ricardo Cunha no blog. Ele mostra um ponto de vista excelente para reflexão..
“Bem, eu como músico e compositor, analiso da seguinte forma…O problema da pirataria é complicado como a Corrupção generalizada existente no mundo, e temos uma crise “natural” da tecnologia do CD, que é uma mídia em extinção… poucos sabem que o custo de um disco de qualidade não é menos que R$10.000, além é claro de promoção e etc… O que sugiro nessa nova realidade é que os fãs financiem os artistas e não as grandes corporações.”
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