Entendendo o perfeccionismo

Vez por outra eu vou tomar um café com meus amigos para refletirmos sobre algumas idéias. Carreira, dinheiro, disciplina, relacionamentos, sempre temos um tópico da vez. Na maior parte das vezes as conversas são interessantes, mas não relevantes.

Hoje no entanto, foi diferente.

A discussão de hoje também beirou diversas das áreas acima, mas gravitou em torno de um tópico: “perfeccionismo”.

A minha antiga visão sobre perfeccionismo era: “Uma pessoa que se apega demais à detalhes e não consegue terminar nada do que começa porque sempre falta algo.”

Você já ouviu variações das frases “O ótimo é inimigo do bom” e “é melhor ter um produto bom hoje do que um perfeito amanhã (porque amanhã nunca chega)”, etc. Elas estão sempre associadas à esse perfeccionismo.

Eu lembro que na minha primeira avaliação de desempenho como profissional, no início da minha carreira, o líder de equipe deu o seguinte feedback sobre mim: “Extremamente perfeccionista. Acaba buscando soluções que são superiores à exigida pelo problema, em detrimento da execução de outras tarefas mais importantes.”

Sabe o que pensei quando li essa avaliação? “Eu não estou sendo perfeccionista. Se você olhar meu trabalho, não tem nada de perfeito nele. Aliás, ele é um trabalho bem ruim. Eu só trabalhei o suficiente para conseguir o mínimo aceitável.”

Você deve conhecer alguém assim também. Alguém que parece que busca a perfeição em tudo o que faz. Mas que, de uma certa forma, não parece fazer nada de tão perfeito assim.

Agora pense em pessoas que realmente buscam a perfeição naquilo que fazem: Gary Kasparov, Tiger Woods, Roger Federer.

Eles parecem “perfeccionistas” como eu pareço na minha avaliação de desempenho? Não. Mas como eles podem ter buscado tanto a perfeição sem “perfeccionismo”, então?

Porque o que nós chamamos de “perfeccionismo” é, na verdade, *covardia*.

Covardia porque, para buscar a perfeição, é preciso desenvolver seu trabalho da melhor forma possível. E para desenvolver seu trabalho da melhor forma possível, você precisa passá-lo pela fase crítica:

O *Teste*.

O preparo interminável seguido do constante adiamento da prova de fogo associado com o perfeccionismo não é nada mais do que covardia. Os verdadeiros perfeccionistas procuram, o quanto antes, saber onde é que eles precisam melhorar. Eles procuram, o quanto antes, expor suas fraquezas.

O enxadrista busca um jogo com um adversário mais forte. O escritor busca, o quanto antes, leitores para sua obra. O programador busca, o quanto antes, usuários para o seu sistema.

Eles buscam o teste. Eles buscam colocar o seu trabalho à prova, para saber onde eles devem melhorar. Isso é buscar a perfeição.

No seu livro “The Art of Learning”, o Josh Waitzkin faz a comparação com um caramujo. O caramujo continua crescendo, embora a concha onde ele vive não acompanhe seu crescimento. Vez por outra, ele precisa deixar sua concha e se expor aos predadores em busca de uma concha maior, para poder continuar crescendo.

É preciso se expor para poder melhorar. Não existe “estar pronto” antes de começar. O treinamento é um ciclo constante entre a teoria e a prática. A prática, além de ser o uso das suas habilidades, faz também parte do treinamento dessas mesmas habilidades.

Existe um ditado samurai que diz “chore no dojo, ria no campo de batalha”. Eu confundia esse ditado com “não vá para o campo de batalha à não ser que você já tenha chorado bastante no dojo”.

Eu estava errado. Na verdade, parte do seu treinamento vem do dojo. A outra parte, acontece lá, no campo de batalha. Você não pode buscar a perfeição como samurai sem ela.

Pense nas habilidades que você pretende desenvolver. Pense nos produtos frutos do seu trabalho. Você busca mesmo a perfeição para eles? Ou você ainda não os expôs à nenhum teste?

Você só pode escolher uma das alternativas. Ou você é um perfeccionista, que expõe seu trabalho e suas habilidades à testes constantemente, expondo suas fraquezas e debilidades.

Ou você é um covarde.

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3 comments so far

  1. Ulisses on

    Legal seu artigo. Mas talvez você pode ter confundido o “covarde” com alguém que tem um tipo de sistemática viciosa, querendo fazer tudo nos mínimos detalhes. O que você debateu como o verdadeiro perfeccionista foi um homem diligente e humilde, que procura a perfeição. Um perfeccionista (“covarde” ou não) quer a simetria de detalhes no que faz, tenha ele submetido seu trabalho a uma avaliação de um superior ou não.

    Às vezes o tal perfeccionista “covarde” nem sabe que necessita de um feedback, muitas vezes seu próprio feedback já é o suficiente. Pode ser que, quando você próprio, autor, era “perfeccionista covarde” – como deixou implicito algumas partes do texto – não sabia que pecava nisto. Se a pessoa não sabe que peca, então pela lógica não pode ser covarde. Cuidado com as conclusões.

    Mas a matéria ficou boa. Concordo que se a pessoa não se submeter a avaliações superiores, pode ficar muito sofrível ser este perfeccionista. Afinal, não tem como ir muito longe quando a casa não cresce junto, não é? É como se diz na Bíblia, em provérbios 14, versículo 23: “Para todo esforço há fruto. Muito Palavrório só produz penúria”. Acredito que não se pode comparar o perfeccionismo, ciclo vicioso, com o perfeccionista que já está “esclarecido”, que sabe que seus erros existem, e que pode buscar corrigí-los. Nem todos os perfeccionistas têm medo de se submeter a uma avaliação superior.

    Esta é minha opinião. Muito legal o artigo.

    Grande abraço, fique com Deus! E que Ele te abençoe sempre!

  2. mtoledo on

    Oi Ulisses,

    Muito obrigado pelo elogio e pelos comentários. É sempre um prazer ter um comentário que discorda, ainda que parcialmente, da nossa opinião, mas que faz isso de forma gentil e humilde.

    Embora tenha gostado muito de suas palavras, não consigo concordar com o conceito de um “perfeccionista esclarecido”. Ter recebido seus comentários, por exemplo, foi uma maneira de colocar vários dos meus conceitos expostos nesse artigo em cheque. É esse o tipo de busca por aprimoramento que eu procuro ilustrar no texto.

    Acho que a possibilidade de um perfeccionista conseguir gerar seu próprio feedback já ser suficiente só pode acontecer caso ele seja o único beneficiado por seu próprio trabalho. Mais do que normalmente, esse não é o caso, e o feedback, através de uma avaliação superior, inferior ou lateral, se torna mais importante do que o feedback próprio.

    Mas, acho que mais importante (e talvez eu não deixado esse aspecto muito claro no artigo), é que perfeccionismo não é sinônimo de não falhar. A minha tese, na verdade, é que o perfeccionismo é buscado de sua forma *correta* (se é que algo assim pode ser feito de uma forma correta, mas ao menos da melhor forma, ou da forma como as pessoas que parecem chegar próximas da perfeição o fazem) através de falhas. Eu vejo muitas pessoas buscando o perfeccionismo através do treino isolado, em que elas tentam isolar todas as falhas para quando elas finalmente “estiverem prontas”. O padrão que eu percebi naqueles que atingiram a quase perfeição em seus campos é que eles se expõe e falham. Eles buscam oportunidades em que falhar seja rápido e barato, e utilizam esse feedback para encontrar um ponto onde se aprimorar, para então poderem falhar novamente, e fazem o possível para manter esse loop de feedback aberto.

    Essa conversa me lembra de um quote do Michael Jordan, que acho que merece o rótulo de “perfeccionista” na sua área, visto que ele chegou tão perto da perfeição em sua performance na mesma:

    “I’ve missed more than 9,000 shots in my career. I’ve lost almost 300 games. 26 times, I’ve been trusted to take the game winning shot and missed. I’ve failed over and over and over again in my life. And that is why I succeed.”

    Novamente, obrigado pelo comentário, pelos elogios, e pela benção!

    Um grande abraço,
    Toledo

  3. Cris on

    Olá, Toledo!

    Faz todo o sentido, você ter atribuido o termo “covarde” ao “perfeccionista”, afinal, com um pouco de psicologia de folhetim, dá para sacar que o que está por trás do perfeccionisto é o não-agir, o não-arriscar, por puro MEDO de errar e ser julgado pelo erro; isso, independente do julgamento vir de terceiros ou de si proprio (que considero ainda pior). É duro admitir, mas nada que com uns dois anos de terapia, já se ~consiga fazer uma mea culpa. Fico feliz, entretanto, em saber que há luz no fim do túnel. Se você ja foi perfeccionista e agora está aqui a escrever estes artigos “quase” perfeitos! Abraços.


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